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Desafios da representatividade feminina em espaços de poder

Episódio recente no Congresso reforça necessidade de respeito e equidade no debate público

Recentemente, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi alvo de interrupções e manifestações desrespeitosas durante uma reunião da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados. Embora divergências políticas façam parte da democracia, o episódio reacendeu uma discussão urgente: o respeito à mulher em espaços de poder ainda precisa ser reafirmado todos os dias.

Marina Silva não é apenas uma liderança reconhecida internacionalmente na pauta ambiental. É também uma mulher negra, de origem humilde, que construiu uma trajetória marcada por superação e serviço público. Já foi senadora, ministra em diferentes governos e candidata à Presidência da República em três eleições. Quando o desrespeito se impõe sobre esse currículo, não é apenas a pessoa Marina Silva que é atingida — é todo o simbolismo do protagonismo feminino que sofre um ataque.

Infelizmente, situações como essa não são pontuais. Mulheres que ocupam cargos de destaque ainda enfrentam obstáculos que vão além do debate técnico ou político. Interrupções constantes, tom de voz desmedido, insinuações sobre competência: são expressões sutis e explícitas de um machismo estrutural que atravessa instituições.

A presença de mulheres nos ministérios ainda é pequena, embora venha crescendo. No governo atual, 11 das 38 pastas são comandadas por mulheres — um número recorde no país, embora ainda distante da paridade. No governo anterior, apenas duas ministras ocuparam cargos com status de ministério. No segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, o número também ficou abaixo de dez. Esses dados revelam que há avanços, mas que o caminho para a equidade de gênero nos espaços de decisão ainda é longo.

A seção Observadoras reafirma que a crítica política deve ser firme, mas nunca desrespeitosa. O Brasil precisa de mais mulheres em posições de liderança e de um ambiente institucional no qual elas sejam ouvidas com seriedade, independente de suas posições ideológicas.

O que o Congresso Nacional fala sobre o armamento civil? Pesquisa do Instituto Fogo Cruzado traz a resposta

Levantamento analisou discursos na Câmara dos Deputados e no Senado de 1951 a 2023

O que o Congresso Nacional tem a dizer sobre o armamento civil?

Foi esta pergunta que norteou um levantamento realizado pelo Instituto Fogo Cruzado, organização dedicada a produzir indicadores sobre a violência armada no país, que analisou discursos proferidos nos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado ao longo de pouco mais de 70 anos.

A pesquisa “O que o Congresso Nacional fala sobre o armamento civil?”, divulgada em 1º de julho, revela que, desde 2015, falas pró-armamentistas dominam a tribuna, hegemonia que foi mantida apesar da mudança de direcionamento no Executivo a partir de 2023.

No ano passado, o primeiro da atual configuração do Congresso Nacional, as tribunas da Câmara e do Senado foram ocupadas três vezes mais por parlamentares com discursos pró-ampliação do acesso a armas pela população do que por falas contra o armamento. Foram 75 discursos a favor da população armada contra 24 contrários.

O estudo, que analisou os discursos realizados no Congresso Nacional sobre o controle de armas de 1951 a 2023, identificou que o domínio dos argumentos favoráveis à facilitação do acesso às armas por qualquer cidadão teve início em 2015.

A 55ª legislatura, eleita em 2014, foi a primeira depois das manifestações que tomaram as ruas do país em 2013. O período se caracterizou por uma grande renovação de parlamentares no Congresso Nacional.

De 2015 a 2018, foram realizados 272 discursos sobre o tema do armamento na Câmara e no Senado, sendo 198 pró-armamento (73%), 65 pró-controle de armas (24%) e nove neutros (3%). Entre 2019 e 2022, o predomínio das falas armamentistas foi mantido: foram 103 discursos pró-armamento, 68 contrários e dois neutros.

Entre 1951 e 1996, o debate foi incipiente, com poucos discursos sobre o tema. De 1997 a 2006, aconteceu uma intensificação, com a criação do Sistema Nacional de Armas, do Estatuto do Desarmamento e do referendo sobre comercialização de armas, totalizando 827 discursos.

Entre 2007 e 2014, foram 550 discursos focados na regulação do armamento de guardas civis e do uso de armas para manejo de javaporcos, espécie de animal resultante do cruzamento de javalis e porcos domésticos que se tornou praga nos campos do sul, sudeste e centro-oeste do país.

Ainda de acordo com o levantamento, os perfis de gênero e raça dos congressistas que falam sobre o tema em plenário são compatíveis com os da composição do legislativo como um todo, com ampla maioria de homens e brancos à frente das discussões.

Confira a íntegra da pesquisa no site do Instituto Fogo Cruzado.